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Atenção: Lars von Trier não é Mel Gibson

22/05/2011

As declarações de Lars von Trier durante a coletiva de imprensa de lançamento de Melancholia (sobre o qual ZuKino antecipou detalhes no ano passado aqui), pode atrapalhar a distribuição do filme fora da Europa. Na Argentina, a Distribution Company, que também opera no Uruguai e Paraguai, rescindiu o contrato com a Zentropa, comprometendo o lançamento do longa-metragem nestes países. No Brasil, Melancholia tem estreia marcada para 5 de agosto pela Califórnia Filmes com cerca de 12 cópias.

Contudo, há que se admitir que as declarações de Lars von Trier chamaram tanta atenção quanto talvez nenhuma estratégia de marketing poderia conseguir. Se antes Melancholia era apenas ‘o trabalho mais recente do diretor’, e ainda que tivesse sido recebido com expectativa pela imprensa especializada no ano passado, agora existe uma aura de curiosidade capaz de levar massas aos cinemas apenas para ver o filme ‘daquele diretor nazista que foi expulso de Cannes’. Nazista ou não, LVT conseguiu causar tanto barulho como poucas vezes se viu na história do cinema. Além disso, os jornalistas o adoram, pois suas afirmações sempre rendem excelentes títulos para as matérias. Neste caso, o conteúdo explosivo do que o cineasta disse mais o argumento de Melancholia, que trata sobre o fim do mundo, deram luz a manchetes apocalípticas.

E apesar de tudo, enquanto isso, no 64º Festival de Cannes, Melancholia recebeu o prêmio de Melhor Atriz para Kirsten Dunst, que interpreta a personagem principal —a qual, e agora todos compreendemos, não por coincidência é denominada Justine. A premiada atriz mostrava nítido constrangimento no rosto há apenas dois dias: parecia estar com vontade de desaparecer instantaneamente ao lado de Lars von Trier, durante a coletiva, enquanto ele não parava de falar o que foi interpretado como absurdo, mas que é também parte da alma dinamarquesa, o humor negro, simplesmente, misturado com quem sabe um pouco de akvavit.

Cena de 'Melancholia' com a atriz Kirsten Dunst (Justine), Palma de Ouro em Cannes 2011.

Em entrevista à Der Spiegel, Lars von Trier foi ainda mais enfático sobre o que disse e pensa, porém, parece mais ponderado — embora diga que Muammar Gadhaffi é “um bom menino” e critique o governo dos Estados Unidos. Sobre o episódio em Cannes, não se contém e alfineta o povo francês. “Acho que este é um tema especialmente delicado aqui em baixo, porque os franceses têm uma história de ser especialmente cruéis para com os judeus”. E explica seu ponto de vista: “Vindo da Dinamarca, pensei que isso (o Holocausto) era passado  e que deveríamos arejá-lo um pouco. Isso foi errado. Foi estúpido da minha parte e peço desculpas pela dor que causou em algumas pessoas. Se alguém quiser me bater, será perfeitamente bem-vindo. Devo adverti-lo, porém, de que eu possa apreciá-lo. Então, talvez não seja o melhor tipo de punição”.  Leia a entrevista na íntegra aqui (inglês).

Ao jornal Los Angeles Times, LVT radicalizou, dizendo que talvez nunca mais vá a uma conferência de imprensa. “Eu não tenho certeza de que vou deixar a Dinamarca de novo”, garante ele, acrescentando que vai voltar para casa para começar a filmar “um filme pornô a convite de Kirsten Dunst”, com “muitos e extremos orgasmos”. A imprensa da Dinamarca está mais preocupada com o vulcão islandês Grimsvötn, que entrou em erupção e cuja nuvem de fumaça ameaça invadir o espaço aéreo do país. O diário Politiken concedeu espaço em suas manchetes à provocação de Lars von Trier veiculada na mesma entrevista à Spiegel: “Sou estúpido, mas não sou Mel Gibson”.

Assista aqui a coletiva de imprensa sobre Melancholia no Festival de Cannes.

Update: O CEO do Danish Film Institute, Ritzau Henrik Bo Nielsen, definiu as declarações de Lars von Trier como “ofensivas” e “insensatas”. “Estou satisfeito que ele tenha feito um pedido de desculpas. E agora cabe a Von Trier encontrar seu próprio caminho para sair da situação em que ele se colocou”, afirmou Ritzau à agência de imprensa dinanarquesa. Ele destacou, contudo, que as observações do cineasta não terão qualquer efeito sobre as decisões futuras do DFI sobre conceder ou não apoio a seus filmes, por mais grave que a situação possa parecer. “Estou convicto de que a indústria cinematográfica tem profissionais capazes de distinguir entre o que diz um diretor e a qualidade de seus projetos”, acrescentou. E concluiu: “Não há nenhuma novidade no fato de que grandes artistas fazem comentários estúpidos”. (Fonte: DFI)

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