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Além do bem e do mal

09/03/2011

O limite entre a paz e a guerra é tênue e pode começar de forma inocente. A ideia do conflito entre decidir fazer o mal, a fim de dar uma lição, ou praticar o bem, mesmo que reste um sabor amargo de humilhação, resume a ideia da complexa trama de Hævnen (In a better world, 2010), de Susanne Bier. Produzido pela Zentropa, o filme recebeu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em fevereiro, após já ter conquistado outros importantes prêmios europeus. A distribuidora norte-americana Sony Pictures Classics promete o lançamento para 1º de abril nos Estados Unidos.  Nos cinemas brasileiros, o longa entra em cartaz sob o título de Em um mundo melhor no dia 11 de março, com lançamento da distribuidora California Filmes.

Trata-se de uma história sensível que mostra a fragilidade humana sob a presença inquietante, e por vezes imperceptível, dos germes da vingança que se esgueiram por meio do luto, da raiva e mesmo da inocência. Hævnen faz sua apologia ao perdão com o dedo em riste, como um aviso para que se esteja alerta aos próprios sentimentos. Ao longo do filme, a garganta do espectador fica apertada, há um mal-estar inexprimível e a tensão é palpável; mesmo que você sinta vontade de chorar, suas lágrimas não caem, devido à gravidade do tema e o peso da atitude de cada personagem.

Hævnen coloca o espectador em uma posição desconfortável. Graças ao roteiro do habilidoso Anders Thomas Jensen, nossa identificação com os atos e razões de vingança é irresistível; por sua vez, nas situações em que a paz é defendida, acarretando um custo pessoal, a aflição é insuportável. O filme de Susanne Bier nos confronta com decisões difíceis. Somos tentados a concordar com a brutalidade, a ser como os piores, em situações-limite que envolvam violência.

O garoto Elias: um símbolo da difícil separação entre o que é certo e o que não é.

O médico sueco Anton (Mikael Persbrandt) trabalha em um campo de refugiados em África; lá, todos os dias, ele lida com os piores pesadelos da guerra civil. Na Dinamarca, seu filho, Elias, é vítima de bullying na escola por ser sueco e ter uma natureza pacífica, características vistas como sinais de fraqueza em vários pontos do filme. A chegada de um novo colega de escola — um garoto recém-órfão de mãe, cujo pai é ausente e omisso — ensina-lhe o sabor da vingança. O desempenho dos atores, incluindo os meninos, é de um nível extraordinário e, por momentos, a linha entre ficção e realidade desaparece — o que só serve para aumentar o desconforto diante do que vemos. Somos levados até a borda tênue entre o que é certo e o que não é, sem moralismo, e mais: sentimos empatia e compaixão pelos personagens. Veja a seguir o trailer no YouTube, ou assista aqui o trailer oficial de Hævnen.

Além do Oscar, Hævnen recebeu, entre novembro e dezembro de 2010, o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, além de faturar os prêmios de Melhor Diretor (India International Film Festival); Melhor Ator (para Mikael Persbrandt; Tallinn Black Nights Film Festival); Melhor Roteiro e Melhor Direção (Seville European Film Festival); Excelência Criativa (Thessaloniki International Film Festival) e os prêmios de Público de Melhor Filme e do Grande Júri de Melhor Filme (Rome International Film Festival). O longa-metragem foi coproduzido por Memfis Film International; Sveriges Television (SVT); Trollhättan Film AB; DR2; Film i Väst, e obteve o apoio à produção do Svenska Filminstitutet, Det Danske Filminstitut e do Nordisk Film- & TV Fond. A distribuição é da Nordisk Film.

Nova fase do cinema dinamarquês — Com o triunfo no Oscar, o cinema moderno da Dinamarca mostra sinais de uma nova fase,  marcada por um cenário internacional que o distingue de décadas anteriores, conforme declarou o crítico Kim Skotte ao jornal dinamarquês Politiken. Nesse sentido, Hævnen é a primeira demonstração eloquente desse momento voltado à internacionalização, cujas fases precedentes foram marcadas por um ponto de vista europeu, com o Dogma 95, e, anteriormente, por filmes históricos e adaptações literárias que evidenciavam a cultura nórdica. Para Skotte, Hævnen “é um filme dinamarquês com um sentido de eficácia dramatúrgica amplo e universal, com o seu tema básico da vingança contra o perdão”.

O Oscar é um green card para o mercado internacional, afirma o CEO do Danske Filminstitut Henrik Bo Nielsen. “Um prêmio como o Oscar gera muita atenção, tanto comercialmente quanto artisticamente, abrindo as portas dos mercados internacionais aos filmes dinamarqueses, particularmente o mercado dos EUA, que costuma ser bastante difícil”, disse.

Esta foi a terceira vez na história do Oscar que a Dinamarca venceu na categoria de Melhor Filme Estrangeiro. Em 1988, Gabriel Axel conquistou o prêmio com a adaptação cinematográfica Babettes gæstebud (A festa de Babette), de Karen Blixen; em 1987, Bille August recebeu uma estatueta por Pelle Erobreren (Pelle, o Conquistador).

O nome de Susanne Bier está entre os dos diretores escandinavos mais promissores da atualidade. São de sua autoria sucessos de público e crítica como Elsker dig for evigt (Corações livres, 2002); Brødre (Brothers, 2004) que deu origem ao remake Brothers (dirigido por Jim Sheridan, 2009) —, e After the wedding (2006), entre outros títulos.  Atualmente, ela está produzindo All you need is love, sátira romântica que envolverá uma família dinamarquesa. O ator inglês Pierce Brosnan é quem vai viver o personagem principal: “É uma comédia, uma história que relaciona a perda e o amor”, entusiasma-se. Se Susanne Bier seguir seu estilo pesado, e ainda bastante fiel a alguns preceitos do Dogma 95, tudo indica que Pierce Brosnan vai sofrer.

Leia aqui a entrevista com Susanne Bier ao site CineEuropa.

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