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Do anticristo ao Apocalipse

29/07/2010

Dizem os atores que é uma honra, que o projeto é poético, que, enfim. Mas o diretor dinamarquês Lars von Trier não promete sol, nem flores, nem esperança com o seu novo filme, Melancholia.  Em conferência de imprensa realizada em Trollhättan, também conhecida como “Trollywood”, na Suécia, na última segunda-feira, 26, ele falou pela primeira vez sobre o projeto, e já adiantou: “Chega de finais felizes”. Talvez ele se referisse à metafísica moderna, pois em suas obras não lembro de algum final feliz. É claro, com esse título, quem esperaria alegrias?

O título do filme refere-se a um certo Planet Melancholia, um grande astro que se aproxima e ameaça a vida na Terra. Manjado, né? Pode ser apenas uma metáfora, uma poética da destruição. Von Trier é um buraco negro cuja matéria causa estranhamento e choque, o que é bom. Além disso, ele cultiva uma mítica em torno de si próprio, com elementos como sadismo e loucura, que resultam em um misto de temor e fascínio.

O diretor descreve Melancholia como “um filme psicológico de desastre” e “um belo filme sobre o fim do mundo”. Ele também falou que seu filme “parece uma merda”. A imprensa adorou. A obra parece fazer jus ao título e, sem bem conhecemos LVT, ele será fiel a seus sentimentos, e também ao seu estilo. “Como um filme-catástrofe, Melancholia utilizará alguns efeitos especiais, mas nada comparado com Hollywood”, avisou Peter Aalbæk Jensen, co-fundador da produtora Zentropa. Como se pretendesse acalmar o pânico do público diante da ideia de ver algo ainda mais forte que Anticristo, Jensen informou que “haverá algum romance” à Lord Byron.

O corajoso elenco é formado por atores de diversos países, incluindo a norte-americana Kirsten Dunst; a francesa Charlotte Gainsbourg, protagonista de Anticristo; os ingleses Kiefer Sutherland, o inesquecível agente Jack Bauer; Charlotte Rampling e John Hurt, o homem-elefante; o dinamarquês Jesper Christensen; o alemão Udo Kier, amigo, colaborador de Von Trier e padrinho de sua filha (Agnes); os suecos Stellan e Alexander Skarsgård, pai e filho, respectivamente, além de Brady Corbet e Spurr Cameron. O orçamento é estimado em US$ 7,4 milhões (54 milhões de coroas). É uma verdadeira superprodução para o padrão escandinavo, caracterizado por baixos orçamentos e poucos mas excelentes atores; é comum encontrar os mesmos nomes em dezenas de produções. De fato, o número de atores por lá é desproporcional ao mercado cinematográfico.

No vídeo exibido pela DR, Lars von Trier esboça um sorriso taciturno, mas é discreto em relação ao enredo do filme: “Há casamento e melancolia, mas eu não quero dizer mais do que isso”. Sutherland, por sua vez, parece excitado com o projeto e disse que está realmente animado com a “honestidade brutal” de Von Trier e com “as filmagens ao vivo, sem ensaio algum” nas quais ele será iniciado. Se já não fossem malucos, Jørgen Leth, de De fem benspænd (The Five obstructions, 2003),  e Charlotte Gainsbourg teriam enlouquecido com as tais filmagens ao vivo e a honestidade brutal de Von Trier.

Mas seus resultados ultrapassam nossa imaginação, e é grande a expectativa com o filme. Melancholia será lançado em maio de 2011 no Festival de Cannes, no qual o trabalho deste cineasta sempre causa sensação e já ganhou numerosos prêmios, entre esses o de Melhor Atriz para Charlotte Gainsbourg, em 2009, por sua traumática personagem em Anticristo.

A esposa psicótica em Anticristo (2009), personagem que levou Charlotte Gainsbourg a superar limites: atriz foi convocada para integrar o cast de Melancholia. De novo, Charlotte?

Assim como o fez em Anticristo e outros projetos mundiais,  Melancholia será interpretado direto em língua inglesa, para facilitar a distribuição. As gravações começaram dia 22 de julho e têm previsão de terminar precisamente dia 8 de setembro. O filme é produzido pela Zentropa em coprodução com a sueca Memfis Film, a francesa Slot Machine e a alemã Köln Zentropa International. A TrustNordisk já vendeu o filme para mais de 20 países, incluindo distribuidoras da Itália (BIM), Alemanha e Áustria (Concorde) e Suíça (Frenetic).

Esqueça os índices que insistem em lhe atormentar. Quem sabe a ideia de LVT seja fazer mais uma trilogia; quem sabe esteja planejando encerrar esse ciclo de modo mais ensolarado, em uma superação de si mesmo; quem ele sabe finalmente traga a seus espectadores o paraíso, mesmo que seja um paraíso vontrieriano. Vamos fingir que ele não fez a comédia Direktøren for det hele (The Boss of It All, 2006), vamos acreditar em sua doença e que ela está em remissão. Esta fase de criação lúgubre, diria o seu analista, é proporcional à sua depressão, coerente com o momento sombrio em que ele se encontra, o que se refletiu em um estilo marcado pelo mergulho no lado mais ameaçador da mente e do caráter humanos. Ele está em melancolia, mas merece a redenção ―  como alguém atormentado que após muito sofrer atingiu a paz.

Pois é, eu também duvido. Melancholia será o Ragnarok.

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