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Millenium: o fenômeno sueco incendeia o mundo

20/06/2010

Já está todo mundo falando sobre The Girl with the Dragon Tattoo (Män som hatar kvinnor), o primeiro filme da trilogia Millenium, imperdível série sueca dirigida por Niels Arden Oplev. Os roteiros são fielmente adaptados de três romances policiais de Stieg Larsson publicados postumamente, que venderam mais de 20 milhões de cópias em 41 países até agora; o sucesso foi tamanho que ele foi o segundo autor mais vendido do mundo de 2008.

Daí que eu ia escrever sobre a trilogia em janeiro, após The Girl with the Dragon Tattoo receber o Cenourão Dourado (na verdade Escaravelho de Ouro), o Guldbagge Award 2009, um dos mais importantes prêmios do cinema nórdico, oferecido pelo Swedish Film Institut (Svenska Filminstitutet), em três categorias — Melhor Filme, Melhor Atriz (Noomi Rapace) e Prêmio de Público. Foi melhor esperar até junho por três motivos. Primeiro porque pude assistir à sequência da trilogia Millenium, The Girl Who Played with Fire (Flickan som lekte med elden), tão eletrizante quanto o filme que abre a série.

Depois, porque o segundo filme entrou em cartaz em Porto Alegre, para minha estupefação. O título em português foi um eufemismo do sueco: Os Homens que não Amavam as Mulheres, em lugar de “os homens que odiavam as mulheres”. O filme foi exibido em um shopping. Foi irresistível pensar que alguém do marketing se passou. A surpresa é porque filmes suecos não se enquadrariam no perfil padrão de consumidor brasileiro imaginado por majors, quase sempre receosas de arriscar algo em um formato diferente e “encalhar” a bilheteria. No Brasil, The Girl Who Played with Fire é distribuído pela Imagem Filmes, que trabalha com diversos segmentos e gêneros nacionais e internacionais. Não sei como foram feitos os acordos, mas tenho um palpite de que a ideia de exibi-lo foi meio na correria ou para tapar algum buraco, pois não vi divulgação, e azar do espectador distraído. Se eu estiver errada, que alguém me corrija.

Terceiro, porque nesse meio-tempo saiu a notícia de que The Girl with the Dragon Tattoo terá um remake para o mercado norte-americano. O jornal sueco Svenska Dagbladet afirmou que a Sony Pictures Entertainment estaria em negociações finais com a produtora Yellow Bird sobre os direitos de The Girl with the Dragon Tattoo e dos outros filmes da série Millenium. Segundo o site de Stieg Larsson, o negócio foi fechado com a Columbia Pictures (pertencente à Sony), que comprou os direitos das três obras para língua inglesa em fevereiro de 2010. Os direitos de propriedade intelectual teriam ficado com a família do autor. A Columbia reescreverá totalmente o roteiro, em vez de traduzir o script original. Steve Zaillian, roteirista de A Lista de Schindler, foi contratado para esse trabalho.

A direção estava sendo disputada por nada menos que Quentin Tarantino, Ridley Scott e Martin Scorsese, mas ficou mesmo com David Fincher (Clube da Luta, Se7en e Alien 3). O livro também deve ser lançado no mercado americano. Se eu fosse um editor brasileiro, faria o mesmo.* Brad Pitt, George Clooney e Johnny Depp foram cotados para o papel do jornalista Mikael Blomkvist (interpretado pelo excelente Michael Nyqvist). De acordo com o jornal The Independent, não tem para ninguém: Daniel Craig, o 007, já fechou a questão. Carey Mulligan, Kristen Stewart e Natalie Portman ainda atormentam o diretor sobre qual delas fará a personagem principal Lisbeth Salander, a heroína de traços violentos, cujo passado serve de gancho para a crítica social à sociedade sueca. Vítima de abusos, fumante compulsiva, hacker, bissexual, o papel da franzina porém poderosa Lisbeth Salander talvez caísse melhorzinho em Keira Knightley. As (re)filmagens devem começar agora em outubro e o lançamento da versão americana está previsto para 2012. Confira abaixo o trailer oficial da trilogia Millenium.

Mas por que trocar o original, que conquistou o mundo com os excelentes enquadramentos, roteiro bem-amarrado e desempenhos memoráveis dos atores suecos, por um remake morninho? Cogito, mas não ergo sumidades. O idioma sueco, por exemplo, um pesadelo para 80% da humanidade, poderia ser um obstáculo. Mas você e eu sabemos que as legendas existem para resolver isso. Ok, talvez americanos desprezem legendas tanto quanto odeiam a expressão french fries, mas isso seria motivo para gastar milhões de dólares em uma refilmagem? Ou talvez o original contivesse potencial para render dores de cabeça aos produtores. Por exemplo: (1) as cenas de sexo entre mulheres, tabu que deixa qualquer americano médio de pêlo em pé; (2) os corpos aparecem como Deus criou, sem lençois e outros tapa-sexos; (3) a cena de estupro cometida pelo tutor. Mas tal moralismo também impediria os americanos de ver (4) o incomparável talento de Noomi Rapace para encarnar Lisbeth Salander, sem falar nos seus piercings, que são reais! Refazer todo o filme por causa do pudor ou apenas para tê-lo falado em inglês são argumentos fracos. Defendo a teoria de que os estúdios de Hollywood estejam preferindo fazer remakes porque isso sai mais baratinho que investir em novos filmes.

Millenium, o documentário – As histórias da série Millenium foram escritas por Stieg Larsson para produzir ao todo 10 livros. Ele, porém, morreu antes de terminar o quarto volume, em 2004, aos 50 anos de idade: ao subir as escadas que o levavam a sua revista, sofreu um ataque cardíaco. Não pôde ver portanto o sucesso de seu trabalho, que transformou-se em um fenômeno mundial. Dos livros à série, Millenium é como uma cornucópia, uma fonte inesgotável de geração de fãs e produtos — que não se estranhe se surgir em breve um videogame com Lisbeth Salander. A Europa e boa parte do mundo ainda estão incandescentes com os livros e filmes da série e já se planeja o lançamento de um documentário contando os bastidores do autor.

Dirigido por Laurence Lowenthal, o documentário Millenium, the History promete lavar roupa em público, contando mais que apenas a história de Stieg Larsson, sua família, infância e trabalho. Além de explorar a trágica morte do jornalista e escritor ocorrida antes da publicação do primeiro livro e narrar seu último dia de vida, o filme deve trazer à tona a bananosa judicial sobre sua herança, sobre a qual ele não deixou testamento e que é reivindicada por familiares e sua companheira, Eva Gabrielsson. Seu engajamento político antiextremista, exercido por meio da revista a qual editava há décadas; o papel de Estocolmo e do contexto histórico-cultural sueco na sua vida e obra; o conteúdo do manuscrito do quarto livro, entre outros temas, também integram a produção, que está sendo disponibilizada pela Music Box Filmes.

Lisbeth Salander (de costas) e a namorada: cenas quentes que os americanos não vão ver no remake.

O primeiro filme da Millenium foi lançado no início de 2008 na Suécia, Dinamarca, Noruega, e em 2009 na Finlândia, tendo sido visto por mais de 2,5 milhões de pessoas nestes países. A série conquistou o mundo inteiro em pouco mais de um ano, tendo já 25 milhões de cópias vendidas. Conforme o jornal sueco The Local, a série Millenium — juntamente com o filme de vampiros Låt den rätte komma in e a série Wallander, está levando o cinema sueco ao período de maior sucesso desde a gloriosa época de Ingmar Bergman. Isso é bombástico. Em entrevista ao jornal, a diretora do Departamento Internacional do Swedish Film Institut, Pia Lundberg, declarou que “sucesso gera sucesso”, ou seja, o franco êxito de alguns filmes suecos no mercado americano, e a atual procura intensa por produtores e atores suecos, estão gerando esse efeito bola de neve. Outro filme sueco recentemente adaptado ao sabor americano foi Brødre (2004), de Susanne Bier.

Se você ainda não viu a Millenium, veja. Lisbeth Salander é um personagem rico, inesquecível. Criada de forma brilhante por Stieg Larsson, ela é um forte ícone feminino, que reúne características contraditórias, como a força física e a violência (coerente nesse caso com as nórdicas), pragmatismo e mente analítica, mas explosiva, com a delicadeza, o erotismo e a justiça moral. De aparência gótica, Lisbeth Salander tem habilidades incríveis com aparelhos eletrônicos, em especial o computador, memória fotográfica e, embora não se enquadre dentro do padrão estético da mulher bonita, é atraente para homens e mulheres. Noomi Rapace fez um papel definitivamente marcante; seu desempenho foi um banho de interpretação, muito além de impecável. Alguns dizem que Lisbeth Salander é Stieg Larsson sob a forma feminina e o jornalista Mikael Blomkvist, seu alterego. Seja como for, a partir do dia 20 de julho, entra em cartaz na Europa The Girl Who Kicked the Hornets’ Nest (Luftslottet som sprängdes), o filme que encerra a trilogia Millenium, cuja direção é de Daniel Alfredsson. Veja o trailer a seguir!

Não tem medo do idioma sueco? Então, vai na SVT – Sveriges Television e encara a série na íntegra!

Update: Segundo matéria da Variety, a Sony prevê o lançamento da versão americana de The Girl With the Dragon Tattoo para 21 de dezembro de 2011.

Update: Os livros foram lançados no Brasil pela editora Companhia das Letras.

This article is available in English: Millennium: the phenomenon Swedish fire places in the world

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One Comment leave one →
  1. 28/06/2010 11:04

    Adorei. Texto super informativo sobre a trilogia. Vi OS HOMENS… no Guion e adorei. Já morei um ano e meio na Dinamarca e adoro a atmosfera nórdica presente nos filmes.
    Quanto ao motivo da refilmagem, que provavelmente não verei, é o mesmo de sempre: os americanos não gostam de legendas e quase todo filme estrangeiro que faz muito sucesso está sujeito a ser refilmado para o mercado doméstico e mundial de gente bitolada que acha que só existem filmes americanos.
    Continue com seu ótimo blog! Parabéns!

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