Skip to content

Os incríveis sons do segundo andar

26/04/2010

Pois não é que o bravíssimo You, the Living (Du Levande, 2007), de Roy Andersson, foi exibido nos Estados Unidos, no Roger Ebert Film Festival, em Champaign, Illinois? O evento, que já tem 12 anos, é uma iniciativa do renomado crítico de cinema Roger Ebert e aconteceu de 21 a 25 de abril. Notável o quanto a vida surpreende. A gente acha que algo jamais acontecerá, como, por exemplo, norte-americanos verem filmes suecos sem fazer cara feia, deixar de fazer passeatas contra o que chamam de indecência ou exigir tarjas na frente do que lhes avilta a moral puritana. Ok, é um festival independente, direcionado a cinéfilos, e Roy Andersson já teve a honra de ser homenageado pelo MoMa de Nova York com uma mostra especial de seus filmes no ano passado. Mas eu não poderia imaginar que os reis do cinema de ação aclamariam um filme que exige do espectador o seu coração; uma obra que fala diretamente conosco, olhos nos olhos, com um requintado senso de humor em uma atmosfera que também não deixa de oprimir. Além da exibição, foi realizado um debate com a plateia presente nos 1,5 mil lugares, em um teatro totalmente lotado. As discussões foram transmitidas ao vivo na internet pelo sistema Ustream.

Roy Andersson é um diretor que já faz parte da história do cinema, não apenas por ter desenvolvido uma estética única e realizado filmes cujas histórias geram verdadeiros mundos paralelos mas que, ao mesmo tempo, dialogam conosco e com a sociedade atual. Suas obras contêm um alto grau de meticulosidade, os detalhes são preparados com obsessiva perfeição, as cenas são trabalhadas como se fossem uma pintura; sua câmera é quase totalmente estática, com um foco profundo; os takes são longos e os personagens não têm sombras (“Eu quero uma luz em que as pessoas não possam esconder-se, eu quero a luz sem misericórdia”, sentencia o diretor). A anomia, o desespero silencioso e o abandono dos personagens denunciam sua futilidade e a nostalgia de uma forma de salvação que se mostra um engodo, seja por causa do tédio, pelo vazio de si mesmo ou pela crueldade como diversão. E embora tal estética possua um tom muitas vezes teatral em um sentido brechtiano, seus filmes tratam sobre o que há de mais comum a todos os seres humanos: seu egoísmo, suas dores; a tristeza, a solidão, a falta de solidariedade. No entanto, esses temas são mostrados de uma forma hilária, sem cair na comédia de gargalhadas, mas como se pudéssemos olhar no espelho e dar um sorriso diante de nossa mesquinhez.

Admirador de Roy Andersson e seus filmes, Roger Ebert, um dos principais críticos de cinema dos Estados Unidos, escolheu You, the Living como um dos melhores filmes independentes de 2009. Em 2001, Songs from Second Floor (Sanger våningen från andra, vencedor do Prêmio do Júri no Festival de Cannes de 2000), também foi exibido no festival de Ebert. You, the Living levou três anos para ser filmado, foi financiado em seis países e 18 fontes, e utilizou principalmente não-atores, uma característica do diretor. Ambos os filmes são fragmentados em forma de esquetes.

Marco do cinema ― Assisti a You, the Living no ano passado, intuí que ali estava um marco na história do cinema mundial e a partir de então decidi realizar um estudo de mestrado filosófico-cultural sobre o trabalho do diretor sueco. You, the Living é uma verdadeira obra-prima, é um filme para ser visto dezenas de vezes, há truques inacreditáveis feitos na unha à guisa de efeitos especiais, tudo low-tech, sem computador ― e por isso as cenas finais são ainda mais inacreditáveis ―; suas imagens ficarão para sempre em minha memória, o que satisfaz um desejo de Andersson: segundo ele, seus filmes possuem significados abertos para suscitar a curiosidade e a insaciedade do espectador e para que possam permanecer no tempo.

Eu já havia ficado abismada com Songs From Second Floor, sobre o qual escrevi um artigo para a revista de cultura NORTE (disponível aqui no ZuKino, em “What I do“), comparando elementos comuns com The Sacrifice (Offret), de Andrei Tarkovsky. Assisti também ao incompreendido Giliap (1975), cuja péssima recepção em festivais internacionais europeus decepcionou tanto a Roy Andersson que ele ficou 25 anos sem fazer um filme. Todos esses três longas, mais seus curtas-metragens (e inclusive alguns comerciais), compartilham da mesma estética singular, da ousadia em criar um caminho artístico próprio que hoje se tornou uma assinatura; a música, por sua vez, não é usada para dar clima mas como se fosse ela também um personagem. Entre todas as suas obras há apenas um rebento que se diferencia e deve ser, em princípio, separado da homogeneidade estética de todos os outros: A Swedish Love History (En Kärlekshistoria, 1970), seu primeiro filme; foi rodado em dois meses, de julho a agosto de 1969. Recém-saído da academia sueca de cinema, Roy Andersson foi aclamado como o cineasta sueco mais promissor na época devido à maestria com que realizou esse filme, que conta uma história de amor entre dois adolescentes e recebeu quatro prêmios no 20º Festival Internacional de Berlim.

Se o começo foi dureza, agora o mundo está finalmente abrindo seus braços para receber Roy Andersson: nos dias 2 e 7 de maio, a rede de TV sueca SVT transmitirá o documentário Studio 24: Roy Andersson – A Time For Everything (Roy Andersson – Det är en också imorgon dag), de Johan Carlsson. Studio 24 é o nome da produtora de Roy Andersson, onde ele também roda comerciais. Lá ele constrói cidades, mundos, universos ímpares de sentido.

Hoje com 66 anos de idade, Roy Andersson tem em sua filmografia quatro longas-metragens, mas prepara para breve sua quinta produção a qual fechará a trilogia Songs … e You, the Living. Diz ele que é uma tragicomédia à Dostoievsky. Permaneço em conexão com “o segundo andar”, ansiosa para ver o que virá de lá. Contudo, aviso ao leitor: não tenha a menor esperança de que esses filmes sejam exibidos aqui no Brasil fora de mostras especiais internacionais. É preciso ir atrás e se virar para consegui-las, meu amigo. (Dica: You, the Living é distribuído nos EUA pela Palisades Tartan.)

Mas não tenha dúvida de que se tratam de obras incríveis que o tempo nunca apagará.

Para quem se interessar pela estética anômica de Roy Andersson, há uma entrevista com o diretor no site The Auteurs (em inglês), em que ele explica sua maneira muito peculiar de fazer filmes.


Anúncios
2 Comentários leave one →
  1. 19/07/2010 20:49

    Puxa, acredita que ainda não vi nenhum filme dele? Adorei a supreendente cena do sonho e demorei pra perceber na janela, que o cenário estava se movendo :-S Me lembrou um pouco Kusturica, mas enfim, só vendo o filme todo…
    Acho que o lance é tentar baixar mesmo.

    • 20/07/2010 20:55

      Jerri, eu acho que o estúdio envia os DVDs, se tu pedir:
      http://www.royandersson.com/en
      Boa sorte! =)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: