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Do Afeganistão ninguém volta

31/01/2010

Cortes precisos, enredo dramático e imagens impactantes é a receita para a dispnéia sibilante de Brothers (Brødre, 2004), da dinamarquesa Susanne Bier. O filme me cativou do início ao final, e tenho certeza de que se trata de uma obra corajosa. O que mais chama a atenção nesta produção é o modo como o tema Guerra do Afeganistão* é abordado. Trata-se de uma história poderosa de repressão, culpa, angústia e perda, aliada a uma excelente edição. Cada vez que a narrativa atinge um ápice de drama, a seguir, o que seria esperado como iminente é apenas sugerido, com cortes que economizam a narrativa e dão-lhe elegância e uma força ainda maior.

Os diálogos não têm meias-palavras e acertam o núcleo do coração do espectador, mesmo aquele já endurecido com tantos filmes norte-americanos sobre a sua “ocupação” do Afeganistão, cujo tratamento é o contrário: soldados heroificados ou vitimizados; bem versus mal definidos com exatidão; campo de batalha apenas exterior, nunca se mostrando o impacto real desta guerra dentro do microcosmo familiar. Após assistir a Brothers, tive a convicção de que os Estados Unidos já devem ser uma nação repleta de psicopatas e famílias implodidas por causa de três guerras seguidas ― e o “atoleiro” do Afeganistão não tem ainda um horizonte final de limite. 

Michael (Ulrich Thomsen) no cárcere talibã: tortura e morte da própria mente.

Ulrich Thomsen em seu cárcere no Afeganistão: torturas e perda de si mesmo.

Brothers é acima de tudo um filme perturbador e que não oferece consolo ao espectador. Ao abordar o tema desta guerra absurda, em que a Dinamarca já mantém tropas desde 2001, a diretora “chuta o balde”, metendo o dedo na ferida de uma forma que jamais vi. A cena em que Michael é obrigado a ensinar os Talibãs a manusear um lançador de mísseis portátil, de última geração, é pungente. É uma arma fabricada com a mais alta tecnologia europeia e é talvez a mesma que derrubara o seu helicóptero. Eis um ponto marcante: esta guerra saiu do controle e tropas estão sendo mortas com as próprias armas. Como esta é uma temática ainda mais ampla, ela se espalha como uma lepra pelo ambiente doméstico lá na capital dinamarquesa, devastando o núcleo familiar.

Michael, um major, vai servir as tropas dinamarquesas no Afeganistão, e curte os últimos dias em família antes de partir. As cenas são de carinho e aconchego, embora o espectador já pressinta um mal-estar. Surgem os inserts de vegetais balançando e dunas de areia, uma pausa relaxante com música etérea… e então vem o corte brusco: vemos Michael já no helicóptero que o leva ao campo de batalha. A aeronave é alvejada por talibãs e explode sobre o mar; não se encontram vestígios de corpos. O caixão de Michael é velado e enterrado com honras de estado na Dinamarca. Sentimos sua morte como ela é na vida: aquela pessoa que ainda agora estava aqui desaparece, em um istmo de segundo, para sempre. A partir daí, a ausência de Michael separa o filme em dois: vemos seu isolamento, as torturas, o deserto de esperança, sua luta por sobreviver para voltar às filhas e à esposa, mesmo que sua mente esteja estropiada, atormentada por um fato sem perdão. Do outro lado, na Dinamarca, a família sofre, se readapta, torna a ser feliz, desta vez com a presença de Jannik (Nikolaj Lie Kaas).

A tragédia é ainda mais contundente por causa da relação entre Michael e seu irmão, Jannik. Eles são um o oposto do outro: enquanto o major é o exemplo de homem de família, ponderado, respeitado e honesto, Jannik é o enfant terrible, bêbado, irresponsável, vagabundo. O pai o despreza. Mas estes laços, tampouco as cenas de pseudotraição entre Jannik e a esposa de Michael, não são o plot principal de Brothers. O ponto principal é este: o que vivemos é irreversível.

Os atores estão todos excelentes, e destaco especialmente o desempenho de Ulrich Thomsen como Michael: magro e de rosto gasto, convence-nos de que ele realmente enlouqueceu pela dor e pela culpa, por negar o mal que fez em uma situação-limite, e por ter se transformado em um morto-vivo que inveja seu irmão e sua mulher. Baseado apenas em índices subjetivos e paranóia, ele tem certeza de que esposa o traiu com Jannik. Mas são as duas filhas pequenas, sobretudo, quem mais sofre com suas explosões de loucura e violência uma delas chega a declarar, com aquela inocente mas brutal crueldade infantil: “Seria melhor que você tivesse continuado morto, papai”.

O final é muito verossímil: opaco, e ficamos sem saber se haverá algum perdão possível agora. Somente o tempo pode curar feridas e traumas, mas isso também dependerá das pessoas envolvidas: se elas se apoiarem, se elas desejarem se curar e conseguirem forças dentro de si mesmas para superar os sofrimentos, talvez. Pois os seus erros e sua estupidez ocorreram em razão de um determinado contexto, em que foram obrigadas a enfrentar o insuportável. E, acima de tudo, um contexto que não foi escolhido por elas.

Brothers recebeu em 2005 o prêmio do público em Sundance e no Rotterdam Film Festival. O filme foi rodado em Kopenhagen e também em regiões da Espanha e do Afeganistão. Assista aqui o trailer de Brothers em alta resolução.

Falarei em um próximo post, em breve, sobre outros três excelentes filmes escandinavos que assisti em dezembro, mas sobre os quais ainda não consegui o tempo que eles merecem para descrever as impressões que me deixaram: o dinamarquês Den Store Badedag (1991), de Stellan Olsson sem legendas disponíveis em outro idioma, lamentavelmente; e os suecos The Emigrants (Utvandrarna, 1971), um filme histórico pungente sobre a imigração de suecos para os Estados Unidos no Século 19, e Maria Larssons eviga ögonblick (2008), uma homenagem à fotografia e ao cinema, ambos do mítico Jan Troell.

Volte aqui no ZuKino para ver!

O que a Dinamarca faz na Guerra do Afeganistão? Entenda aqui

* A invasão do Afeganistão pelos Estados Unidos iniciou-se em 7/10/2001. A alegação era encontrar Osama bin Laden e outros líderes da Al-Qaeda e colocá-los a julgamento, e remover o regime talibã. A ocupação à força se deu em razão dos atentados de 11 de Setembro de 2001 contra o World Trade Center, no coração de Nova York. As Nações Unidas não autorizaram a invasão do Afeganistão. Atualmente, a situação é de instabilidade política, traição, assassinatos generalizados e atividades insurgentes. A guerra não foi vencida no seu principal objetivo de capturar Osama bin Laden. Até junho de 2009, um total de 24 dinamarqueses foram mortos no Afeganistão; é a taxa de mortalidade per capita mais alta entre as forças da OTAN. A Dinamarca tem mais de 700 soldados no Afeganistão, a maioria deles estacionada na província de Helmand, sob comando britânico.

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