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Mentiras verdadeiras

25/11/2009

A animação Lies (Lögner, 2008) traz três histórias verdadeiras sobre a mentira, mas o tema é tão interessante quanto a estética da obra. Produzido pela sua agência FilmTecknarna, de Estocolmo, e a Sveriges Television, o curta-metragem utiliza colagens e desenhos em ritmo de videoclipe, recheado de closes e ângulos surpreendentes. Em três episódios baseados em entrevistas documentais, encontramos um assaltante que, quando descoberto, passa a afirmar ser um contador clandestino; um menino que se encontra imobilizado diante de acusações e confessa um crime que não cometeu e uma mulher cuja vida inteira foi uma cadeia de mentiras.

De acordo com o diretor de Lies, Jonas Odell, sua ideia foi utilizar o frágil conceito de “verdade” e fazer um filme usando material documental construído sobre estes três blocos. Ao final, o espectador acaba com uma visão subjetiva de uma fatia do mundo. “Fiquei interessado em usar histórias verdadeiras sobre mentiras como a base para uma película. Afinal, não são os realizadores os maiores e mais glorificados mentirosos de todos?”, ironiza o sueco.

A cultura escandinava combate tanto a hipocrisia quanto possui exemplos clássicos de uma burguesia apegada às pequenas mentiras, embora as características de discurso direto dos idiomas e a própria herança cultural impeçam de não se falar sobre temas espinhosos diante de qualquer um. Até hoje, a cinematografia nórdica funciona como libelo contra a mentira a si e ao outro, talvez por traumas kierkegaardianos. Ser verdadeiro e duro consigo mesmo equivaleria, grosso modo, a ser livre. “Quem não provou a amargura do desespero está enganado sobre o significado da vida”, escreveu Kierkegaard, saboreando um chocolate debaixo de uma árvore.

Lies tem 13 minutos e foi rodado em 35mm. A produção da FilmTecknarna foi realizada em cooperação com a estatal de tevê finlandesa YLE e com o apoio do Svenksa Filminstitutet (instituto sueco de cinema) e o fundo Nordic Film.

Não haverá chance de assistir a Lies na íntegra, a não ser que você seja daqueles aficionados por festivais internacionais de filmes. É possível conferir um pedacinho, com uma resolução miserável que não faz jus à sua qualidade, no YouTube, logo abaixo. Aqui há outro trecho, com uma excelente qualidade, mas em um formato não-suportado por este blog.

Aproveita e também confere Revolver, uma trágica animação criada e dirigida por Odell e seus colegas da FilmTecknarna, Stig Bergqvist e Lars Ohlson, cujas esquetes trazem à baila a hipocrisia e a tragédia da vida com bom humor.

Videomaker e diretor de cinema nascido em Estocolmo em 1962, Jonas Odell é especialista em misturar animação 2D e 3D e ação ao vivo (live action), e dirigiu dezenas de curtas, videoclipes e comerciais para tevê. Foi premiado com o Urso de Ouro de Melhor Curta-Metragem no Festival Internacional de Cinema de Berlim de 2006 por Never Like the First Time! (Aldrig gången första som!). Por Lies, Odell ganhou o Guldbagge Awards de Melhor Curta-Metragem, prêmio que já havia recebido por Never Like the First Time! (2006). Lies também recebeu este ano o Prêmio do Júri Internacional de Curtas Filmmaking no Sundance Film Festival.

Jonas Odell foi escolhido ainda como um dos 100 maiores animadores de todos os tempos em uma pesquisa mundial organizada pela rede inglesa Channel Four. Ele também foi indicado ao Grammy e ganhou um MTV Music Awards pelo vídeo da música “Take Me Out”, da banda inglesa Franz Ferdinand. Desde que codirigiu Revolver, Odell passou a criar clipes para artistas como Goldfrapp, Feeder, U2 e The Hours. Entre seus comercaisi constam trabalhos para BMW, Virgin e MTV.

Bom, por hoje é tudo. Em breve, prometo escrever algo sobre as profundas impressões e surpresas que tive ao assistir o excelente You, the Living (2007) de Roy Andersson. Até mais!

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