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Cinema traumático

16/10/2009

Dizem que o dinamarquês Lars von Trier é um realizador de filmes polêmico. Após o lançamento de Anticristo (Antichrist, 2009), se o diretor aparecesse em minha cidade (Porto Alegre), é provável que fosse apedrejado, pois a mídia não o ajudou muito. Um jornalista local deu-lhe “três estrelas e meia” e disse que “desta vez, Lars von Trier passou dos limites”. Sinceramente, não sei o que as pessoas esperam de um cineasta escandinavo: um filme com um final feliz? comédias leves de humor barato? Uma diversão para “toda a família”? Os diretores nórdicos não são conhecidos por fazer filmes convencionais: desde a escola de Bergman à própria raiz da filosofia escandinava, passando pelas sagas históricas, a vida é uma tragédia sobre a qual é preciso refletir sem rodeios. Está no gene. Além disso, o mal-estar que causa Anticristo está no “mostrar” cenas de sexo e violência sem rodeios, e o falar ou mostrar as coisas diretamente é um costume malvisto no Ocidente cristão. É preciso dar sempre uma aliviadinha, não tocar no assunto de forma explícita. No Brasil, esta regra é seguida exponencialmente, e nosso idioma escorregadio é rico em metáforas e formas de não se dizer “sim” ou “não”. Nossa realidade é um jogo de equilíbrio hipócrita, é um “ficar em cima o muro”, e se define pelo “talvez”. De qualquer forma, é também verdade que essa gente lá do Círculo Ártico gosta de uma provocação.

Acredito que Lars von Trier seja apenas um moleque perto do sueco Lukas Moodysson, um cineasta, este sim, polêmico e que já deixou a plateia do Festival de Berlim perplexa, estarrecida e indignada. Conhecido por fazer um cinema autoral, o diretor de Lilya 4-Ever (2002), do terrível Um Vazio no Coração (Ett hål i mitt hjärta, 2004), do fofo Tillsammans (Together, 2000) e do vaiado Mammoth (2009), entre outros títulos, não parece estar muito interessado no público mas em fazer estritamente o que tem na cabeça. Não obstante, é o único diretor sueco a ganhar quatro vezes o cobiçado Guldbagge Award, o maior prêmio de cinema na Suécia, concedido pelo Svenska Filminstitutet.

Após assistir ao seu Tillsammans, fui em busca de outras obras de Moodysson. Na época, eu ainda não tinha “mulas”; assim, só achei algo em uma videolocadora. “Algo” se chamava Um Vazio no Coração. Ainda bem que não tenho aparelho de DVD, logo, os discos nem sempre rolam corretamente no computador. Neste caso, as cores sumiram. Mas, como não tinha outro jeito, assisti em preto-e-branco mesmo. O filme é um trauma. Se não tivesse dado um bug no computador, e eu o visse em cores, a experiência teria sido ainda mais sufocante. E embora estas credenciais nada animadoras, é um filme que vale a pena ser visto como obra de arte reflexiva.

Um Vazio no Coração causou certa polêmica na Suécia por conta de suas cenas chocantes e realmente perturbadoras, incluindo close-ups de perereca. Algumas das cenas de sexo violento teriam acontecido de fato durante as filmagens. A mim, as piores partes foram as referentes a experiências com comida e a cena em que os homens, menos o garoto Eric (Björn Almroth), planejam estuprar Tess com um taco de beisebol  ― acreditei que de fato iam fazer isso.

Pois o que mais choca neste filme, fora o que se vê, é aquilo que não aparece: o sentimento que senti foi de desespero. Lá pelo meio do filme, esqueci que aquilo era ficção e comecei a me aterrorizar com o que poderia acontecer à atriz. E em meio ao terror psicológico, ao abuso e à violência emocional emergiu o intragável: os protagonistas se confortavam. Havia, naquilo tudo, alguma forma de “família” que os fazia sentirem-se melhor ali, naquele apartamento sórdido, fazendo aquelas coisas, do que viver normalmente em meio à sociedade. O “lá fora”, e o futuro, para eles, era mais insuportável que estar sufocado naquele presente. Tess até tenta fugir do jugo de seus colegas, mas não suporta, e volta. E isso é o que resta ao espectador: agüentar, após recuperar o fôlego e o senso de realidade, que talvez os personagens até tenham razão. De maneira que o filme não é ruim: pelo contrário, é excelente, embora horrível, visualmente e também como história, pois é pior que um filme de horror. Mas é ótimo em sua proposta de atingir a alma do espectador. É tão bom que você se esquece que é um filme. Ok, talvez as cenas explícitas sejam um exagero. Talvez elas tenham acontecido. Mas a obra está ali, e ela foi feita para causar mal-estar, para que quem a veja reflita sobre a sua sociedade e seu modo de vida. Não sei se esse filme poderia ser exibido nos cinemas de Porto Alegre.

Assim, voltemos a Anticristo. Diante de tudo o que Lars von Trier mostra, pelo menos tem uma historinha para nos aquecer o coração, coisa que no filme de Moodysson não existe. Afora isto, a obra do sueco é anterior. “Alguma coisa aconteceu com este homem para ele se tornar tão doentio, ele não era assim”, disse-me o atendente para quem depois entreguei o DVD. Acho que ele estava errado. Lilya4-Ever já trazia alguns elementos de Um Vazio no Coração. Além disso, é uma ironia que as filmagens de Um Vazio no Coração sejam tão cruas que radicalizem as regras do Dogma 95, elaborado justamente por Lars von Trier, em parceria com o seu conterrâneo Thomas Vinterberg. Portanto, tenha coragem, caro leitor: encha os pulmões de ar e faça o teste da comparação. Comentários serão bem-vindos.

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One Comment leave one →
  1. 04/11/2009 19:54

    deixei um comentário. quero assistir o filme. depois, tu ‘me’ atravessa a rua.

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