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Cinema com maçãs

14/10/2009

ZuKino é um blog que vai tratar sobre o novo cinema escandinavo, as produções contemporâneas da Noruega, Dinamarca , Suécia, Finlândia e Islândia. Por que um blog sobre este tema? Porque a cena do cinema nórdico atual é rica, muito diversa e inteligente. Porque o cinema nórdico tem uma linguagem estreitamente ligada ao teatro antigo do Norte e às vanguardas artísticas europeias. Porque fala-se pouco de cinema escandinavo. Porque sou fã de Ingmar Bergman, Lars Von Trier, Roy Andersson, Andrei Tarkovsky (russo exilado na Suécia), Lukas Moodysson, Bent Hamer, Anders Thomas Jensen, Liv Ulmann, entre tantos outros. Enfim, porque o cinema desses países traz um pouco da cultura do seu povo, gente com um humor diferente, que fala sobre tabus de forma direta, com crítica à hipocrisia social e à fé cristã.

Como estamos recém-iniciando as atividades por aqui, está tudo muito simples, mas minha ideia é incrementar o blog com trailers, estudos e críticas sobre o cinema nórdico. Sempre que possível, citarei boas fontes. Também aviso que sempre colocarei o título em inglês (em português, o significado torna-se obscuro) com o original entre parênteses, ou simplesmente no original. Além de ser coerente com uma antiga vontade de disseminar por aí algumas dicas do que tenho visto, ZuKino foi criado como tarefa de finalização do curso “Ferramentas Digitais para o Jornalismo Investigativo” do Knight Center for Journalism da Universidade do Texas em Austin.

Brindo, assim, meus primeiros leitores com uma rápida abordagem de Adams Apples (Adams æbler, 2005), de Anders Thomas Jensen, uma comédia de humor negro deliciosa e inteligente que é um de meus filmes prediletos da nova geração de cineastas nórdicos. Comecemos por uma opinião resumida de um colaborador do Internet Movie Database:

Apart from merely being amusing and intriguing as a comedy, the film succeeds in communicating a meaningful message to the audience, while being deep and sufficiently complex in its values. Indeed, the film’s central theme questions our central notion of good and evil without giving definite conclusions: whether there really exist absolute values is eventually left unanswered. Which is better of the two: the blindly devoted and fanatically optimistic priest Ivan or the nihilistic neo-Nazi Adam? Jensen attempts to twist the basic setting by making Ivan appear rather unsympathetic: while he helps people as a priest, he doesn’t seem to do it because of them but rather because of his faith alone. It is often Adam, who notices this, not failing to observe (almost objecting to) the weaknesses of Ivan’s behaviour, and yes, it is the cold-hearted, evil Adam who seems to care more and more as the story goes on. (IMDB)

Da direita para a esquerda: Ivan, o pastor, tenta explicar o que Khalid fez ao gato de Gunnar.

Da direita para a esquerda: Ivan, o pastor Pollyanna, tenta explicar o que o terrorista Khalid fez ao coitado do gatinho do pervertido Gunnar.

Adam é um neonazista sensível com jeito de durão. Ele sai da prisão e ficará em liberdade condicional sob a proteção do pastor Ivan, alma que se engana com uma versão “boa” do mundo para suportar a realidade e que costuma tomar para si a missão de educar ex-presidiários. Na igreja moram também os ex-apenados Gunnar, glutão, alcoólatra e ladrão, além de pervertido ― a cena em que ele tenta explicar a Adam o que faz com uma berinjela na mão, diante da porta de seu quarto, onde uma amiga nua deitada de costas sobre a cama o aguarda, é sensacional ―, e Khalid, um terrorista paquistanês entediado e completamente maníaco por matar a tiros tudo o que se mova.

Niilista e pragmático, Adam troca o retrato de Jesus em seu quarto por um de Hitler; fuma seus cigarros de modo reflexivo e praguejeia contra a Bíblia, que insiste em cair no chão toda vez que ele passa por ela. Espanca Ivan até um ponto que chegamos a ter pena dele, simplesmente para educar o pastor, para “racionalizá-lo”. E embora tamanha truculência, Adam almeja apenas fazer uma torta de maçã: é a missão que escolhe realizar na igreja para merecer não voltar à prisão. A torta de maçã é a única coisa realmente sagrada para Adam. Mas a macieira é tomada por corvos, depois por pragas, de maneira que Adam entende que Deus não presta e quer matá-los. A história segue nesta linha de queda, violência e redenção até o desfecho, surpreendente, tudo embalado ao som dos indecentes Bee Gees. Então, é isso. O neonazi é o herói com aufklärung. Deus é mau, violento e egoísta e quer matar a todos nós. O filme é em dinamarquês, com legendas em inglês e francês. Embora Adams Apple’s seja diversão certa, até onde sei o filme não tem distribuição no Brasil. Vire-se!

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