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Surpresa: ‘Ninfomaníaca’ será exibido em Cannes

28/11/2013

Parece provocação, e deve ser mesmo. Nymphomaniac, de Lars von Trier,  estreia dia 25 de dezembro, em pleno Natal, em uma sessão de gala na Dinamarca. Os planos de lançamento contemplam duas versões do filme, cujo mote provoca: “Forget about love”.  A versão original, sem cortes, tem 5 horas e meia e será lançada em 2014 no Festival de Cannes, conforme adiantou com exclusividade a revista norueguesa Montages.

Nymphomaniac terá a versão longa e hardcore, incluindo close-up em genitais, e outra mais suave, com menos cenas de sexo explícito – a que será veiculada na maioria dos cinemas. A versão editada será exibida em duas partes. No Brasil, a distribuição será por conta da California Filmes, com estreia em 10 de janeiro, e provavelmente custará o preço de dois ingressos.

Pela primeira vez, o diretor dinamarquês deixou o corte final de uma obra com outra pessoa, a editora do Danish Film Institut, Molly Malene Stensgaard. Lars von Trier aceitou (com má vontade, dizem) a versão de 4 horas por conta de interesses de mercado. No total, Nymphomaniac custou  € 8 milhões e os investidores pressionaram pelo retorno comercial. 

De acordo com a produtora da Zentropa, Louise Vesth, o diretor está “feliz” com as duas versões do filme e nega que o corte tenha sido feito contra a vontade dele: “Definitivamente, não é este o caso, como se escreveu na imprensa”. Segundo a produtora, Lars von Trier entendeu que era necessário pensar na distribuição e na exibição. “É do seu interesse que o filme possa ser visto em diferentes países”, disse Vesth em entrevista exclusiva ao Screen Daily. Para a produtora,  Nymphomaniac “é o melhor trabalho de Lars von Trier”. Ela antecipa que o filme aborda temas atuais importantes, como sexualidade, relacionamentos, religião, natureza e civilização. “É uma obra fantástica”, define.

Cena de Charlotte Gainsbourg em Nymphomaniac, um libelo contra a possibilidade do amor.

Cena de Charlotte Gainsbourg (Joe) em Nymphomaniac, um libelo contra a possibilidade do amor.

A atriz francesa Charlotte Gainsbourg interpreta Joe, uma ninfomaníaca confessa que descreve suas experiências eróticas a Seligman (Stellan Skarsgård, ator sueco); ele a salva na rua, após vê-la caída e machucada por espancamento. A história é narrada por Joe em flashback dos anos 60 até hoje. A obra é dividida em oito capítulos, um deles em preto e branco. O elenco de estrelas inclui Shia LaBeouf , Christian Slater, Jamie Bell, Uma Thurman e Connie Nielsen. As cenas de sexo explícito foram realizadas por dublês.  O último capítulo de Nymphomaniac é claramente inspirado em Andrei Tarkovsky (a quem o diretor dedicou seu penúltimo filme, Antichrist), mas não há slow motion, como em Melancholia. Apesar do tom trágico, dizem que o filme é engraçado, mais próximo da comédia do que Os Idiotas e The Boss of It All.

A distribuição está sob comando da Nordisk Film e as vendas, com a TrustNordisk, que também é responsável pelos cartazes e trailer. O filme será distribuído em mais de 50 países, incluindo Estados Unidos (Magnolia Pictures), Canadá (Mongrel Media ), Europa/Reino Unido/Irlanda (Artificial Eye), Alemanha/Áustria (Concorde ), França (Les Films du Losange), CIS (Commenwealth of Independant States: Rússia e ex-repúblicas soviéticas), Brasil (California Filmes) e Austrália/Nova Zelândia (Transmission).

Há quem ainda duvide de uma première da versão sem cortes de Nymphomaniac no Festival de Cannes 2014, já que Lars von Trier foi considerado persona non grata pela direção do evento em 2011, em razão de comentários sobre o nazismo e declarar sua simpatia a Hitler, causando constrangimento aos seus colegas da Zentropa. Mas a Croisette está ansiosa pelo novo filme do enfant terrible: no início deste ano, o diretor do festival, Thierry Fremaux, disse que “Lars von Trier é bem-vindo, pois não foi declarado ‘persona non grata para sempre'”. Não está definido ainda se Nymphomaniac vai participar da competição.

Dono de um humor próprio, Lars von Trier disse que está lançando um novo gênero cinematográfico chamado “digressionismo”. E grudou uma fita adesiva na boca como promessa de que, desta vez, não concederá entrevistas sobre o filme.

Obs.: Eu estava devendo um post desde 2012 aqui no ZuKino. Obrigada aos fiéis seguidores! God Jul!

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A traição que mudou a história da Dinamarca apaixona público e crítica

14/04/2012

O romance épico A Royal Affair (En Kongelig Affære) promete ser um dos maiores sucessos no cinema dinamarquês de todos os tempos, tanto no circuito interno de cinema quanto no exterior. Produzido pela Zentropa, o filme de Nikolaj Arcels recebeu dois ursos de prata no 63º Festival de Berlim, em fevereiro, e já foi exibido para 4,4 milhões de espectadores desde a estreia, em 29 de março.

Romance entre a rainha da Dinamarca, Caroline Mathilda, e o médico do Rei Christian VII, Johann Struensee, um triângulo amoroso que mudou o curso da história do país

Adaptado do romance de Bodil Steensen-Leth, A Royal Affair traz ao público um pouco da História da Dinamarca por meio de um triângulo amoroso provocante e proibido que mudou toda uma nação – um drama sobre os idealistas corajosos que lutaram pela liberdade do povo dinamarquês e para isso arriscaram tudo. No final de 1760, Caroline Mathilde (Alicia Vikander), rainha da Dinamarca de origem inglesa, casou-se com seu primo, rei Christian VII (Mikkel Boe Følsgaard), cujos problemas mentais e a não assumida homossexualidade o levaram pouco a pouco a se afastar do poder. Seu médico, o alemão Johann Friedrich Struensee (Mads Mikkelsen) entra na cena política e na alcova do reino, tomando o poder do rei e se tornando amante da rainha. É uma história de conclusão trágica, mas que mostra como Struensee usou sua influência sobre o reino da Dinamarca para torná-la livre dos arcaísmos cruéis medievais e trazê-la para a era do Iluminismo.

A Royal Affair já foi vendido a 79 países. A distribuidora TrustNordisk só tem a comemorar com os resultados do filme no mercado escandinavo e os pedidos de cessão de direitos para exibição que não param de chegar de todas as partes do mundo. Rapidamente, todos os grandes distribuidores de países de língua inglesa sacaram os talões de cheques para garantir a compra do filme. A Royal Affair também já foi vendido a distribuidoras da Turquia, China, Alemanha (MFA), Áustria (Filmladen ), Espanha (Golem), Suíça (Film Elite), China, Japão, Rússia, Cuba e a quase toda a Europa Oriental, como Polônia, Eslováquia, República Checa, Estônia, Romênia e Lituânia.

O número de espectadores de A Royal Affair já aponta um desempenho melhor que o de qualquer outro filme dinamarquês do ano passado: em uma única semana de exibição, foi visto por mais de 110.000 pessoas. Há certeza de que supere com folga Hævnen (In a Better World), de Susanne Bier, que recebeu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2011 e fechou as exibições com 450.000 bilhetes vendidos na Dinamarca.

O ator Mads Mikkelsen como o médico alemão Johann Struensee: elenco e roteiro são aclamados pela crítica

Críticas e cinta-liga – Triângulos amorosos têm força para causar polêmicas, inflamar paixões e instaurar dúvidas sobre a instituição monogâmica. Além de contar uma história apaixonante, A Royal Affair tem sido muito elogiado pelo roteiro fortemente estruturado em pelas atuações impecáveis dos atores. “Especialmente Mikkel Boe Følsgaard é notável em um papel muito difícil. Ele joga com o equilíbrio entre o mental e momentos de absoluta clareza e elegância finamente dosados. Em última análise, ele torna Christian VII humano”, escreve o crítico Jacob Wendt Jensen, do jornal Berlingske.

A história ganha ainda mais vida através de documentos e objetos de época, como o conjunto de cinta-liga que Struensee deu de presente à Caroline Mathilda, o qual foi apresentado como prova contra ele em seu julgamento, que ao fim o condenou à morte. A equipe leu pelo menos sete livros que narram o fato histórico, todos repletos de controvérsias e pontos de vista divergentes. Ao final, conseguiram um roteiro equilibrado, sem caricaturizar os papéis.

No Festival de Berlim, Nikolaj Arcel e Rasmus Heisterberg levaram o Urso de Prata de Melhor Roteiro e Mikkel Boe Følsgaard, que desempenha o papel do rei Christian VII, recebeu o Urso de Prata de Melhor Ator. O roteiro recebeu supervisão do diretor Lars Von Trier. Nikolaj Arcel e Rasmus Heisterberg já haviam obtido sucesso internacional com o roteiro do thriller The Girl With the Dragon Tattoo, o primeiro filme da série Millenium.

Veja a seguir o trailer de A Royal Affair (em inglês).

Segundo Rikke Ennis, CEO de vendas da Trust Nordisk, A Royal Affair tem potencial pleno para atingir popularidade internacional graças ao elenco, em especial ao desempenho de Mads Mikkelsen, e em parte pela verdadeira grandeza do filme, que toca em dois pontos caros aos nórdicos: a invasão do Cristianismo e a liberdade, igualitária e fraterna. “É a primeira vez que a Dinamarca faz este tipo de épico, e que pode competir à altura com os grandes filmes de época americanos e franceses. Mas a verdadeira história por si só também vende o filme realmente bem”, disse ao jornal Politiken.

A expectativa é de que A Royal Affair seja lançado até 2013 em todos os países que compraram os direitos de exibição. No Brasil, o filme ainda não tem distribuição.

Leia aqui a entrevista que o diretor Nikolaj Arcels concedeu ao Danish Film Institut: “The responsability to tell a good story” (em inglês).

Filmes para você ler

01/10/2011

Com o notável aumento do interesse por filmes suecos e a internacionalização da indústria cinematográfica escandinava como um todo, o Svenska Filinstitute (Instituto Sueco de Cinema) lançou em setembro um aplicativo em inglês para download gratuito no iTunes. Em apenas 10 dias na App Store, a revista Swedish Film alcançou o topo da lista dos aplicativos grátis mais baixados na Suécia. Desde a semana passada, o número de downloads aumentou 3%, totalizando até então mais de 2 mil em todo o mundo — o aplicativo não é popular apenas na Suécia. Noruega, Estados Unidos, Dinamarca, Finlândia e Reino Unido: também estão na lista, em ordem de demanda, Rússia, China, Brasil, Malásia e Singapura.

Com artigos e notícias sobre todos os novos filmes suecos que estão em evidência na cena internacional e os nomes que estão por trás de cada obra, o foco da Swedish Film são longas e curtas-metragens, assim como documentários, mostrados nos festivais internacionais de cinema de maior prestígio. O objetivo é divulgar também quem são os diretores, produtores e atores em ascensão. Na edição atualmente disponível há entrevistas com os diretores Ruben Ostlund, Johannes Nyholm, Jens Assur, Ella Lemhagen e Björn Runge, gente que já faz sucesso na terra de Thor.

Capa da Swedish Film no iTunes: revista multimídia gratuita para quem tem iPad.

A revista traz ainda um catálogo com o que há de novidades sobre os recursos cinematográficos empregados no atual cinema sueco e trailers dos filmes. Para quem trabalha com cinema, a Swedish Film pode ainda ser um excelente guia de contatos, onde se pode encontrar informações sobre as mais importantes produtoras, empresas de vendas, distribuidoras, festivais de cinema e organizações para o apoio e fomento do cinema no país.

O aplicativo porém só funciona em iOS  3.2 e iPad; a ferramenta foi criada pelo departamento internacional do Instituto Sueco de Cinema, em colaboração com a produtora TurbinAB e Markus AD Edin, e pode ser baixada aqui.

Para quem não possui um iPad ou sistema operacional da Apple, a revista Film#Magazine é disponível em inglês no formato PDF e pode ser baixada gratuitamente no site do Det Danske Filmistitut (DFI), o instituto de cinema dinamarquês. A revista é publicada antes dos principais festivais de cinema da Europa, como os de Berlim, Cannes e Amsterdã, e contém artigos profundos sobre filmes dinamarqueses, além de entrevistas com diretores. Após o download, a Film#Magazine pode ser lida em qualquer equipamento que abra o formato ou mesmo ser impressa. Boas leituras!

Atenção: Lars von Trier não é Mel Gibson

22/05/2011

As declarações de Lars von Trier durante a coletiva de imprensa de lançamento de Melancholia (sobre o qual ZuKino antecipou detalhes no ano passado aqui), pode atrapalhar a distribuição do filme fora da Europa. Na Argentina, a Distribution Company, que também opera no Uruguai e Paraguai, rescindiu o contrato com a Zentropa, comprometendo o lançamento do longa-metragem nestes países. No Brasil, Melancholia tem estreia marcada para 5 de agosto pela Califórnia Filmes com cerca de 12 cópias.

Contudo, há que se admitir que as declarações de Lars von Trier chamaram tanta atenção quanto talvez nenhuma estratégia de marketing poderia conseguir. Se antes Melancholia era apenas ‘o trabalho mais recente do diretor’, e ainda que tivesse sido recebido com expectativa pela imprensa especializada no ano passado, agora existe uma aura de curiosidade capaz de levar massas aos cinemas apenas para ver o filme ‘daquele diretor nazista que foi expulso de Cannes’. Nazista ou não, LVT conseguiu causar tanto barulho como poucas vezes se viu na história do cinema. Além disso, os jornalistas o adoram, pois suas afirmações sempre rendem excelentes títulos para as matérias. Neste caso, o conteúdo explosivo do que o cineasta disse mais o argumento de Melancholia, que trata sobre o fim do mundo, deram luz a manchetes apocalípticas.

E apesar de tudo, enquanto isso, no 64º Festival de Cannes, Melancholia recebeu o prêmio de Melhor Atriz para Kirsten Dunst, que interpreta a personagem principal —a qual, e agora todos compreendemos, não por coincidência é denominada Justine. A premiada atriz mostrava nítido constrangimento no rosto há apenas dois dias: parecia estar com vontade de desaparecer instantaneamente ao lado de Lars von Trier, durante a coletiva, enquanto ele não parava de falar o que foi interpretado como absurdo, mas que é também parte da alma dinamarquesa, o humor negro, simplesmente, misturado com quem sabe um pouco de akvavit.

Cena de 'Melancholia' com a atriz Kirsten Dunst (Justine), Palma de Ouro em Cannes 2011.

Em entrevista à Der Spiegel, Lars von Trier foi ainda mais enfático sobre o que disse e pensa, porém, parece mais ponderado — embora diga que Muammar Gadhaffi é “um bom menino” e critique o governo dos Estados Unidos. Sobre o episódio em Cannes, não se contém e alfineta o povo francês. “Acho que este é um tema especialmente delicado aqui em baixo, porque os franceses têm uma história de ser especialmente cruéis para com os judeus”. E explica seu ponto de vista: “Vindo da Dinamarca, pensei que isso (o Holocausto) era passado  e que deveríamos arejá-lo um pouco. Isso foi errado. Foi estúpido da minha parte e peço desculpas pela dor que causou em algumas pessoas. Se alguém quiser me bater, será perfeitamente bem-vindo. Devo adverti-lo, porém, de que eu possa apreciá-lo. Então, talvez não seja o melhor tipo de punição”.  Leia a entrevista na íntegra aqui (inglês).

Ao jornal Los Angeles Times, LVT radicalizou, dizendo que talvez nunca mais vá a uma conferência de imprensa. “Eu não tenho certeza de que vou deixar a Dinamarca de novo”, garante ele, acrescentando que vai voltar para casa para começar a filmar “um filme pornô a convite de Kirsten Dunst”, com “muitos e extremos orgasmos”. A imprensa da Dinamarca está mais preocupada com o vulcão islandês Grimsvötn, que entrou em erupção e cuja nuvem de fumaça ameaça invadir o espaço aéreo do país. O diário Politiken concedeu espaço em suas manchetes à provocação de Lars von Trier veiculada na mesma entrevista à Spiegel: “Sou estúpido, mas não sou Mel Gibson”.

Assista aqui a coletiva de imprensa sobre Melancholia no Festival de Cannes.

Update: O CEO do Danish Film Institute, Ritzau Henrik Bo Nielsen, definiu as declarações de Lars von Trier como “ofensivas” e “insensatas”. “Estou satisfeito que ele tenha feito um pedido de desculpas. E agora cabe a Von Trier encontrar seu próprio caminho para sair da situação em que ele se colocou”, afirmou Ritzau à agência de imprensa dinanarquesa. Ele destacou, contudo, que as observações do cineasta não terão qualquer efeito sobre as decisões futuras do DFI sobre conceder ou não apoio a seus filmes, por mais grave que a situação possa parecer. “Estou convicto de que a indústria cinematográfica tem profissionais capazes de distinguir entre o que diz um diretor e a qualidade de seus projetos”, acrescentou. E concluiu: “Não há nenhuma novidade no fato de que grandes artistas fazem comentários estúpidos”. (Fonte: DFI)

Lars von Trier, seu moleque!

20/05/2011

O cineasta dinamarquês Lars Von Trier deixou Cannes de cabelo em pé este ano, ao declarar, durante uma coletiva de imprensa do seu filme, Melancholia — que participa do certame. Durante a conferência, afirmou que era nazista e simpático a Hitler. Embora estivesse exercendo seu humor pouco acessível a quem não é dinamarquês, e embora as declarações tenham sido feitas com sorrisos explícitos de LVT, suas afirmações causaram mal-estar não apenas na organização do Festival de Cannes, que o expulsou do evento sob a alcunha de persona non grata. Sua produtora, a Zentropa, está consternada e emitiu uma dura nota sobre o assunto. Leia a íntegra, traduzida para o português, logo abaixo:

Diretor Lars von Trier posa durante sessão de fotos no 64º Festival de Cannes (REUTERS/Eric Gaillard).

“A Zentropa declara:

A Zentropa gostaria de pedir desculpas a todos os indivíduos, parceiros, colaboradores e instituições que tenham sofrido danos de qualquer espécie, tendo em conta as opiniões de Lars Von Trier.

Queremos deixar absolutamente claro que a Zentropa não partilha da percepção de Lars Von Trier sobre o que é engraçado dizer numa conferência de imprensa, e que suas opiniões estão em conflito direto com os valores da Zentropa.

Neste contexto, também gostarímaos de expressar grande pesar pela diretora Susanne Bier, que foi envolvida no caso da pior forma possível.

Lars von Trier pediu desculpas para nós e para o mundo e lamentou as suas declarações, assumindo que ele, na tentativa de ser engraçado, pisou em pessoas que sofreram perdas insuportáveis​​. Lars Von Trier não tem preconceitos contra as pessoas de ascendência judaica e não simpatiza com Hitler nem com as conseqüências de suas ações.

Esperamos que tenhamos condições, eventualmente, de recuperar a confiança de todos e faremos tudo o que pudermos para corrigir os danos que possam ter sido causados pelas ​​declarações de Lars Von Trier.

Peter Jensen Aalbæk

Após tudo isso, como se fosse pouco o que havia dito e causado, Lars von Trier afirmou, ainda na sexta-feira (20): “Eu acho que uma das razões (para o seu banimento do festival) é que esses franceses são os mesmos judeus que foram maltratados na II Guerra Mundial”. Ou seja, com isso, ele não parece tão arrependido de suas declarações, e ainda provoca mais polêmica.

ZuKino publicará um especial sobre a barulhenta participação de Lars von Trier no Festival de Cannes 2011, e as consequências possíveis na distribuição de Melancholia, ainda neste fim de semana. Não perca!

Além do bem e do mal

09/03/2011

O limite entre a paz e a guerra é tênue e pode começar de forma inocente. A ideia do conflito entre decidir fazer o mal, a fim de dar uma lição, ou praticar o bem, mesmo que reste um sabor amargo de humilhação, resume a ideia da complexa trama de Hævnen (In a better world, 2010), de Susanne Bier. Produzido pela Zentropa, o filme recebeu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em fevereiro, após já ter conquistado outros importantes prêmios europeus. A distribuidora norte-americana Sony Pictures Classics promete o lançamento para 1º de abril nos Estados Unidos.  Nos cinemas brasileiros, o longa entra em cartaz sob o título de Em um mundo melhor no dia 11 de março, com lançamento da distribuidora California Filmes.

Trata-se de uma história sensível que mostra a fragilidade humana sob a presença inquietante, e por vezes imperceptível, dos germes da vingança que se esgueiram por meio do luto, da raiva e mesmo da inocência. Hævnen faz sua apologia ao perdão com o dedo em riste, como um aviso para que se esteja alerta aos próprios sentimentos. Ao longo do filme, a garganta do espectador fica apertada, há um mal-estar inexprimível e a tensão é palpável; mesmo que você sinta vontade de chorar, suas lágrimas não caem, devido à gravidade do tema e o peso da atitude de cada personagem.

Hævnen coloca o espectador em uma posição desconfortável. Graças ao roteiro do habilidoso Anders Thomas Jensen, nossa identificação com os atos e razões de vingança é irresistível; por sua vez, nas situações em que a paz é defendida, acarretando um custo pessoal, a aflição é insuportável. O filme de Susanne Bier nos confronta com decisões difíceis. Somos tentados a concordar com a brutalidade, a ser como os piores, em situações-limite que envolvam violência.

O garoto Elias: um símbolo da difícil separação entre o que é certo e o que não é.

O médico sueco Anton (Mikael Persbrandt) trabalha em um campo de refugiados em África; lá, todos os dias, ele lida com os piores pesadelos da guerra civil. Na Dinamarca, seu filho, Elias, é vítima de bullying na escola por ser sueco e ter uma natureza pacífica, características vistas como sinais de fraqueza em vários pontos do filme. A chegada de um novo colega de escola — um garoto recém-órfão de mãe, cujo pai é ausente e omisso — ensina-lhe o sabor da vingança. O desempenho dos atores, incluindo os meninos, é de um nível extraordinário e, por momentos, a linha entre ficção e realidade desaparece — o que só serve para aumentar o desconforto diante do que vemos. Somos levados até a borda tênue entre o que é certo e o que não é, sem moralismo, e mais: sentimos empatia e compaixão pelos personagens. Veja a seguir o trailer no YouTube, ou assista aqui o trailer oficial de Hævnen.

Além do Oscar, Hævnen recebeu, entre novembro e dezembro de 2010, o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, além de faturar os prêmios de Melhor Diretor (India International Film Festival); Melhor Ator (para Mikael Persbrandt; Tallinn Black Nights Film Festival); Melhor Roteiro e Melhor Direção (Seville European Film Festival); Excelência Criativa (Thessaloniki International Film Festival) e os prêmios de Público de Melhor Filme e do Grande Júri de Melhor Filme (Rome International Film Festival). O longa-metragem foi coproduzido por Memfis Film International; Sveriges Television (SVT); Trollhättan Film AB; DR2; Film i Väst, e obteve o apoio à produção do Svenska Filminstitutet, Det Danske Filminstitut e do Nordisk Film- & TV Fond. A distribuição é da Nordisk Film.

Nova fase do cinema dinamarquês — Com o triunfo no Oscar, o cinema moderno da Dinamarca mostra sinais de uma nova fase,  marcada por um cenário internacional que o distingue de décadas anteriores, conforme declarou o crítico Kim Skotte ao jornal dinamarquês Politiken. Nesse sentido, Hævnen é a primeira demonstração eloquente desse momento voltado à internacionalização, cujas fases precedentes foram marcadas por um ponto de vista europeu, com o Dogma 95, e, anteriormente, por filmes históricos e adaptações literárias que evidenciavam a cultura nórdica. Para Skotte, Hævnen “é um filme dinamarquês com um sentido de eficácia dramatúrgica amplo e universal, com o seu tema básico da vingança contra o perdão”.

O Oscar é um green card para o mercado internacional, afirma o CEO do Danske Filminstitut Henrik Bo Nielsen. “Um prêmio como o Oscar gera muita atenção, tanto comercialmente quanto artisticamente, abrindo as portas dos mercados internacionais aos filmes dinamarqueses, particularmente o mercado dos EUA, que costuma ser bastante difícil”, disse.

Esta foi a terceira vez na história do Oscar que a Dinamarca venceu na categoria de Melhor Filme Estrangeiro. Em 1988, Gabriel Axel conquistou o prêmio com a adaptação cinematográfica Babettes gæstebud (A festa de Babette), de Karen Blixen; em 1987, Bille August recebeu uma estatueta por Pelle Erobreren (Pelle, o Conquistador).

O nome de Susanne Bier está entre os dos diretores escandinavos mais promissores da atualidade. São de sua autoria sucessos de público e crítica como Elsker dig for evigt (Corações livres, 2002); Brødre (Brothers, 2004) que deu origem ao remake Brothers (dirigido por Jim Sheridan, 2009) —, e After the wedding (2006), entre outros títulos.  Atualmente, ela está produzindo All you need is love, sátira romântica que envolverá uma família dinamarquesa. O ator inglês Pierce Brosnan é quem vai viver o personagem principal: “É uma comédia, uma história que relaciona a perda e o amor”, entusiasma-se. Se Susanne Bier seguir seu estilo pesado, e ainda bastante fiel a alguns preceitos do Dogma 95, tudo indica que Pierce Brosnan vai sofrer.

Leia aqui a entrevista com Susanne Bier ao site CineEuropa.

Palhaço descabelado estoura bilheterias

13/02/2011

O ZuKino volta finalmente de férias, e já tem vários temas quentes para dar o boot em 2011: a indicação de In a better world, de Susanne Bier, para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro; o estrondoso sucesso de Klovn: The Movie, de Mikkel Norgaard; além de um post recheado sobre a excelente série policial sueca Wallander. Também é preciso acompanhar de perto a disputa dos escandinavos no Festival de Berlim e muitas outras novidades no cinema nórdico. Há bastante trabalho.

Vamos começar com Klovn, The Movie, por ser um filme que dificilmente será lançado por aqui sem chocar defensores dos bons costumes, por conta do seu grau de ousadia em cenas de sexo. Lançado em 16 de dezembro de 2010 na Dinamarca, sob censura para menores de 11 anos, o longa-metragem de Mikkel Norgaard nasceu a partir de uma série de TV, e recebeu, no dia 7 de fevereiro, o Robert Awards na categoria Audiência. O prêmio é oferecido pela Film Academy of Denmark (Danmarks Film Akademi), em Copenhagen.

A obra é uma sátira escandalosa e já havia inflamado os ânimos do público dois meses antes com a exibição de seu cartaz, que traz o ator Casper Christensen nu, com um membro gigantesco — metade coberto por uma mão masculina, o que aumenta o impacto da outra metade visível —, deitado entre outras pessoas igualmente nuas em diferentes posições. Na época, o cartaz provocou um debate na imprensa local sobre se o pênis de Casper Christensen era verossímil, se pertenceria mesmo ao ator, e indagava a opinião das pessoas a respeito dessas questões protuberantes. A discussão foi mantida em um tom de bom humor, sem qualquer reprovação ou preocupação com repercussões morais ou negativas. Não obstante, o trailer de Klovn foi inicialmente proibido no YouTube em razão de seu conteúdo sexual. O mundo não tem humor dinamarquês.

Cartazes de Klovn, The Movie: Dinamarca (L.) e e EUA (R.): sátiras com Antichrist e Beleza Americana.

Entretanto, o trailer está de volta ao YouTube pelo efeito da multiplicação. Entre as cenas mais quentes do filme, que não aparecem na divulgação, Casper Christensen tem relações sexuais com outro homem, Frank Hvam, e, simultaneamente, enfia o dedo no ânus de uma mulher. Contudo, a obra não pretende ser pornográfica, e sim engraçada. Parece que conseguiu bem mais que isso.

E não é somente por mostrar cenas de sexo incomuns, mas por ser uma obra de autoficção, ou seja: o ator Casper Christensen e o comediante Frank Hvam autointerpretam-se. Seus papéis no filme recebem os seus nomes reais e fazem referência à sua vida; a partir disso, o limite entre dentro e fora das telas se confunde em um jogo de  espelhos que brinca com a realidade e a ficção. Há aqui uma apreciação crítica sobre Klovn, feita a partir da série de TV, pelo Danish Journal Film Studies. Assista ao trailer oficial de Klovn no site da TrustNordisk. Abaixo, a versão do YouTube.

Em fevereiro de 2011, Klovn tornou-se o filme mais popular da década na Dinamarca, e é o 11º filme mais visto da história do país, com a venda de fabulosos 828.864 ingressos até esse momento – e pode bater o recorde de bilheteria dos últimos dez anos pertencente a Den Eneste Ene (1999), de Susanne Bier, que vendeu 843 mil ingressos. “Acreditamos que o filme venderá mais de 850.000 bilhetes e, portanto, ficará em terceiro no ranking entre os filmes mais vendidos na memória recente da Dinamarca”, entusiasma-se Jan Lehmann, diretor da distribuidora Nordisk Film.

Menos de três meses após a estreia, a produtora Zentropa está pronta para produzir uma possível sequência para Klovn, The Movie: “Quando Casper Christensen, Frank Hvam e diretor Mikkel Norgaard estiverem prontos, também estaremos prontos para dar-lhes o melhor ambiente que pudermos para fazer o filme”, anunciou o produtor Luiz Vesth ao jornal Politik. Está curioso? No site da Zentropa, é possível comprar o box completo da série. Quanto ao filme, é esperar a TrustNordisk lançar o DVD. Ou não, claro. 😉

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